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Diversidade alimentar e doença alérgica

Aumento da diversidade alimentar no primeiro ano de vida está inversamente associado com doenças alérgicas. (Increased food diversity in the first year of life is inversely associated with allergic diseases). Roduit C, Frei R, Depner M, Schaub B, Loss G, Genuneit J, Pfefferle P, Hyvärinen A, Karvonen AM, Riedler J, Dalphin JC, Pekkanen J, von Mutius E, Braun-Fahrländer C, Lauener R; the PASTURE study group. J Allergy Clin Immunol. 2014 Feb 6. pii: S0091-6749(13)02964-3. doi: 10.1016/j.jaci.2013.12.1044.

Abstract:
BACKGROUND: The role of dietary factors in the development of allergies is a topic of debate, especially the potential associations between infant feeding practices and allergic diseases. Previously, we reported that increased food diversity introduced during the first year of life reduced the risk of atopic dermatitis.
OBJECTIVE: In this study we investigated the association between the introduction of food during the first year of life and the development of asthma, allergic rhinitis, food allergy, or atopic sensitization, taking precautions to address reverse causality. We further analyzed the association between food diversity and gene expression of T-cell markers and of Cε germline transcript, reflecting antibody isotype switching to IgE, measured at 6 years of age.
METHODS: Eight hundred fifty-six children who participated in a birth cohort study, Protection Against Allergy Study in Rural Environments/EFRAIM, were included. Feeding practices were reported by parents in monthly diaries during the first year of life. Data on environmental factors and allergic diseases were collected from questionnaires administered from birth up to 6 years of age
RESULTS: An increased diversity of complementary food introduced in the first year of life was inversely associated with asthma with a dose-response effect (adjusted odds ratio with each additional food item introduced, 0.74 [95% CI, 0.61-0.89]). A similar effect was observed for food allergy and food sensitization. Furthermore, increased food diversity was significantly associated with an increased expression of forkhead box protein 3 and a decreased expression. of Cε germline transcript.
CONCLUSION: An increased diversity of food within the first year of life might have a protective effect on asthma, food allergy, and food sensitization and is associated with increased expression of a marker for regulatory T cells.

Comentários:
O papel de fatores dietéticos no desenvolvimento de alergias é um tópico em debate, especialmente as associações potenciais entre práticas de alimentação na infância e doenças alérgicas.
Previamente, foi relatado que o aumento da diversidade alimentar introduzido durante o primeiro ano de vida reduziu o risco de dermatite atópica.
Neste estudo, os autores investigaram a associação entre a introdução de alimentos durante o primeiro ano de vida e o desenvolvimento de asma, rinite alérgica, alergia alimentar, ou sensibilização atópica, levando em consideração a causalidade reversa.
Os autores analisaram também a associação entre diversidade alimentar e expressão de genes de marcadores das células T e de transcrição Cε germline (refletindo a troca de classe de anticorpos para IgE), avaliados aos 6 anos de idade.
Oitocentas e cinquenta e seis crianças que participaram de um estudo de coorte de nascimentos, o Estudo de Proteção contra a Alergia em Ambiente Rural, foram incluídas. Práticas alimentares foram relatadas pelos pais em diários mensais durante o primeiro ano de vida. Dados sobre fatores ambientais e de doenças alérgicas foram coletados por meio de questionários administrados desde o nascimento até os seis anos de idade.
Foi avaliada a expressão de genes para T-bet (T-box transcription factor) e Gata-3, fatores de transcrição relacionados ao desenvolvimento de células Th1 e Th2, respectivamente; e de Foxp3 (forkhead box protein 3), fator de transcrição que leva ao desenvolvimento de células T regulatórias.
O aumento da diversidade de alimentos complementares introduzido no primeiro ano de vida esteve inversamente associado com asma, com efeito dose resposta (odds ratio ajustado com cada alimento adicional introduzido, 0.74 [IC95%, 0.61-0.89]). Um efeito similar foi observado para alergia alimentar e sensibilização a alimentos.
Verificou-se redução significante de 26% para o desenvolvimento de asma, com cada alimento adicional introduzido no primeiro ano de vida. A associação negativa entre diversidade alimentar e asma foi maior para crianças com asma e dermatite atópica (n=29), em comparação com crianças sem nenhuma das 2 doenças.
As crianças com menor diversidade alimentar apresentaram aumento do risco de alergia alimentar até os 6 anos e sensibilização a alérgenos alimentares aos 4.5 ou 6 anos, comparado com as crianças com maior diversidade alimentar. Houve tendência para associação negativa entre diversidade alimentar e rinite alérgica ou sensibilização a inalantes, embora não tenha sido estatisticamente significante.
Ao avaliar a introdução específica de alimentos e desfechos alérgicos, verificou-se forte associação negativa entre asma e leite e derivados (como iogurte e manteiga) introduzidos no primeiro ano de vida, em comparação com as crianças que não consumiram estes alimentos no primeiro ano de vida. O risco de alergia alimentar foi menor entre as crianças que consumiram peixes no primeiro ano de vida em comparação com aquelas que não consumiram.
O aumento da diversidade alimentar foi significantemente associado com um aumento da expressão de Foxp3 (fator envolvido na aquisição de tolerância) e diminuição da expressão de transcrição Cε germline (fator relacionado à produção de IgE). Não foi observada associação entre diversidade alimentar e expressão de mRNA de T-bet e Gata-3.
Os pontos fortes do estudo são o desenho prospectivo e a coleta de dados sobre introdução de alimentos complementares, o que evita viés de memória. Uma das principais preocupações para se estabelecer associações entre práticas de alimentação e doenças atópicas envolve a causalidade reversa. Entretanto, mesmo após excluir as crianças com alergia alimentar e/ou desordens respiratórias no primeiro ano de vida, os resultados permaneceram significantes para asma, e houve uma tendência semelhante, embora mais fraca, para alergia alimentar e sensibilização. Além disso, todas as análise multivariadas foram ajustadas para dermatite atópica, e a associação negativa entre diversidade alimentar e asma parece ser independente do efeito da dermatite atópica.
Pode ter ocorrido uma subestimativa da prevalência de alergias (o que diminuiria o efeito da associação). Outra limitação do estudo está na impossibilidade de generalizar os resultados para outras populações, pois envolve uma população selecionada da área rural da Europa.
Ainda se desconhece o mecanismo protetor da diversidade alimentar. Possivelmente, o efeito protetor para asma esteja relacionado ao desenvolvimento das células T regulatórias, com papel na diminuição da inflamação. Além disso, alguns componentes da dieta, como ácidos graxos de cadeia curta e longa e prebióticos apresentam propriedades imunorregulatórias. Outra possibilidade seria o efeito sobre o desenvolvimento da flora intestinal, seus metabólitos ou ambos e a relação destes com a resposta imune.
Em conclusão, um aumento da diversidade de alimentos no primeiro ano de vida pode exercer efeito protetor sobre asma, alergia alimentar e sensibilização alérgica e está associado com aumento da expressão de marcadores para células T regulatórias.

20.09.2014