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Aleitamento materno - um mito? Tão natural e tão "sobrenatural".

25/04/2017 | 10:07

Retirado do Dicionário Houaiss: Mito.
5 fig. construção mental de algo idealizado, sem comprovação prática; ideia, estereótipo;
7 valor social ou moral questionável, porém decisivo para o comportamento dos grupos humanos em determinada época;
8 afirmação fantasiosa, inverídica, que é disseminada com fins de dominação, difamatórios, propagandísticos, como guerra psicológica ou ideológica;

Fiquei em dúvida sobre qual seria a melhor caracterização para justificar tanta desinformação a respeito do aleitamento materno que dificulta, em algumas culturas, a sua prática adequada.

Em estudo recente, publicado na Índia, foi feita uma revisão sobre os mitos e crenças relacionados ao aleitamento materno, desmame e práticas de alimentação complementar, comumente ouvidos nas culturas dos países em desenvolvimento.

- O colostro não deve ser administrado a crianças.
- A mãe não deve amamentar se sofrer de uma infecção.
- Os bebês precisam de água além do leite materno.
- Uma mulher que engravida deve parar de amamentar.
- Amamentação muda a forma e o tamanho dos seios.
- Mamilos devem ser lavados cada vez antes de alimentar o bebê.
- Nenhum medicamento é seguro de tomar durante a amamentação.
- A quantidade de secreção de leite depende do tamanho da mama.
- Um bebê precisa receber água com açúcar antes da primeira amamentação

Um estudo na Indonésia relata que as taxas de aleitamento materno exclusivo (AME) até 6 meses foi de 12%. 17% das mães descartaram o colostro, por acreditarem que as ele estava sujo, caseoso ou indigesto e as crianças sofreriam de dores de estômago ou se tornariam “burras”. Além disso, 74% das mães ofereceram líquidos suplementares além do leite materno nos primeiros 7 dias de vida. A prática da alimentação pré-láctea (oferecer outro alimento, de preferência açúcar, agua e fórmula infantil antes de iniciar a amamentação) também foi comum, sob a crença de ajudar os recém-nascidos a resistir à fome. A maioria dessas mães (79%) introduziu alimentos complementares quando as crianças tinham entre 1 e 4 meses de idade. Mais estarrecedor, foi que 55% das mães tiveram a percepção de que a amamentação teria de ser interrompida quando a criança sofresse de doença diarreica aguda e infecção aguda do trato respiratório.

No Paquistão, outro estudo mostrou que 94% dos lactentes receberam alimentação pré-láctea antes do início da amamentação e 65,4% não receberam colostro. O alimento mais comum foi uma preparação de mel e ervas. As preparações à base de plantas foram indicadas para regular infecções do trato gastrointestinal e água para extinguir sede. Durante a primeira semana, 46% das crianças foram alimentadas com mamadeira e aos 5 meses essa taxa subia para 84%. 14% das crianças receberam alimentos semi-sólidos durante o 3º mês de idade e 48% aos 4 meses de idade.

Outro estudo realizado no Egito (Sohag) relatou mais desses mitos:
- O leite de uma mulher não é bom quando ela está com dor;
- O leite some quando exposto ao mau-olhado.
- Se o bebê desenvolver diarreia deve-se suspender a amamentação e não banhar bebê, por uma semana.
- Acreditava-se que não havia leite materno nos três primeiros dias de vida.
- Deve-se amamentar em apenas um dos seios, pela crença de um peito dar alegria e outro fazer o bebê triste.
- Se a mãe desenvolver febre, ela deve parar de amamentar.
As dificuldades mais comuns que as mulheres que amamentam enfrentavam em Sohag foram mamilos rachados (24)%, recusa alimentar (17%), congestão mamária (11%) e depressão pós-parto (7%).

Outros estudos mostram que no Vietnã, na Indonésia, Filipinas o colostro é muitas vezes descartado, visto como leite sujo. Na Tailândia, o colostro é considerado inútil e uma causa de diarreia em lactentes.

Esse estudo da Índia conclui que apesar de a maioria das mulheres terem consciência da importância da amamentação exclusiva, não há uma prática correspondente, muitas vezes devido aos costumes e tradições prevaletes em nossa sociedade. Outro estudo recente, também na Índia, traz a recomendação de instrução de saúde a respeito do aleitamento materno exclusivo para as mulheres grávidas durante as consultas de pré-natal e a educação em saúde entre as mulheres, de forma geral, especialmente as idosas, que têm um papel muito importante na família, para melhorar o conhecimento.  

Mas, apesar de isso parecer uma realidade muito distante da nossa, os estudos no Brasil mostram que também temos nossos mitos que interferem na prática adequada do aleitamento familiar, como esse realizado em Pelotas (Mitos e crenças acerca do aleitamento materno no estado do Rio Grande do Sul), um dos nossos maiores redutos em prol da amamentação no Brasil.

Sua conclusão aponta que “mitos/crenças em torno do aleitamento materno foram muito presentes no cotidiano das gestantes como possíveis causas de desmame precoce, devendo ser estudados mais atentamente e estratégias criadas para amenizar seu impacto negativo na população nutriz.”

Os mais citados no estudo, que refletem uma realidade nacional, foram que o “leite secou/seca, o leite materno não mata a sede do bebê, os seios caem com o aleitamento” (associados à menor escolaridade), “leite fraco e leite materno não mata a sede do bebê” (classe econômica C).

Além disso, os principais fatores alegados para desmame precoce foram esses mitos relacionados ao aleitamento materno, falta de vontade ou preguiça de amamentar e trabalho, como em outros estudos com populações semelhantes.

Explicações sobre esses mesmos mitos na amamentação aparecem, inclusive, em matéria do Blog do Ministério da Saúde como fatores que podem interferir no sucesso do aleitamento materno (canjica e caldo de cana aumentam a produção de leite; leite congelado, mesmo que retirado das mamas, não tem os mesmos nutrientes; quem fez redução mamária ou colocou silicone não poderá amamentar; seios muito pequenos não produzem leite na quantidade suficiente para o bebê;
o leite do banco de leite pode não ser seguro; mastite pode ser um obstáculo para mães que amamentam).

Algumas dessas falas inclusive vão contra recomendações básicas do aleitamento materno como nos temas de segurança (“se a mãe tiver dificuldades de amamentar seu filho, o ideal é que o bebê mame no seio de outra mulher” – amamentação cruzada, contraindicada no Brasil), de livre-demanda (“o bebê pode ficar mal acostumado se não tiver horários para mamar”), de práticas pouco difundidas, mas importantes (“amamentar durante uma segunda gestação pode prejudicar o desenvolvimento do bebê no útero” – amamentação em TANDEM) e até de interferência na introdução alimentar (“quando o bebê começa a comer,  o leite materno pode prejudicar a absorção de ferro” – leite materno favorece a absorção de ferro).

É fundamental a divulgação dos dados que comprovam a importância do aleitamento materno às mães, assim como é importante informar as consequências da “não-amamentação”. Mas, é essencial que não nos esqueçamos da influência da cultura, das tradições, da família no sucesso do processo, mostrando que a gestante e a mãe lactante não podem ser as únicas responsabilizadas pela atual situação e atingidas pela carga de comprometimento.

A sociedade, a mídia, o governo, as empresas, as redes sociais, profissionais de saúde formam uma rede de apoio importantíssima para que cada uma das crianças brasileiras tenha o melhor começo de vida e chances de um presente e um futuro saudáveis. Basta que, para isso, cada uma cumpra o seu papel.

21.09.2017