Promoção à Saúde e Prevenção de Doenças
Prevenção efetiva da obesidade em crianças: é uma questão de paladar?
Rodríguez CMF, Fernandez BG. J Pediatr Gastroenterol Nutr 2008; 46: 356–358.
A prevalência de sobrepeso e obesidade tem aumentado nos últimos anos, nos países desenvolvidos, principalmente devido ao aumento da oferta de alimentos altamente calóricos e da diminuição do gasto de energia pela atividade física.
Dentre os 25 países que compõem a União Européia, 18% dos escolares apresentam sobrepeso ou obesidade. Como a chance destas crianças se tornarem adultos obesos é alta, provavelmente haverá aumento da prevalência de doenças como diabetes mellitus tipo 2, esteatose hepática não alcoólica, doenças cardiovasculares, certos tipos de cânceres entre outras. Devido a este fato, é importante o combate à obesidade desde a infância.
A obesidade tem como causas aspectos culturais, comportamentais, sociais e ambientais. Os programas de intervenção para prevenção da obesidade infantil devem envolver estes fatores, mas é fundamental que haja motivação e participação ativa das crianças e de seus familiares. Além disso, é essencial que os programas de intervenção promovam modificações do estilo de vida de forma que possam ser mantidos para o resto da vida.
É importante limitar o número de horas de atividades sedentárias (assistir televisão, jogar vídeo game ou utilizar computador) a, no máximo, 2 horas/dia e estimular a prática esportes, jogos corporais e exercícios.
Como as crianças passam grande parte do tempo nas escolas, é essencial que disponibilizem locais adequados para a prática de atividade física; controlem o acesso a alimentos altamente calóricos e refrigerantes (cantina, lanchonete e máquinas de venda); estimulem caminhadas e o uso de bicicleta, fornecendo locais apropriados para andar a pé, de bicicleta e para estacionar as bicicletas.
A indústria alimentícia também tem um papel importante. O marketing via televisão, filmes, celulares e internet estimula o consumo de alimentos ricos em açúcar, sal e gorduras e influencia as escolhas alimentares das crianças. Uma Comissão da União Européia está pressionando as indústrias alimentícias para diminuir o número de propagandas de “junk” food e auxiliar no combate à obesidade.
O conteúdo de energia dos alimentos influencia as preferências por sabor em humanos, que certamente é maior para gordura e açúcar. O limiar para detecção de sabores em humanos varia bastante. Em adolescentes obesos, o limiar para o sabor doce parece ser menor.
Um trabalho publicado nesta revista relatou os resultados de um estudo populacional com 1837 crianças, com idades entre 8 e 10 anos em 3 áreas geográficas italianas. Os pesquisadores investigaram o número e composição de lanches consumidos semanalmente e sua relação com o estado nutricional. Os resultados não mostraram diferença no número de porções de alimentos por dia entre obesos e não obesos (p = 0.06), entretanto, devido ao nível de significância limítrofe, provavelmente há um efeito cumulativo no ganho de peso a longo prazo. Os demais resultados eram esperados: crianças obesas consumiram mais calorias provenientes dos lanches e eram mais sedentárias, cada item de lanche consumido por semana aumentou a chance da criança se tornar obesa em 2% e para cada hora de atividade física programada por semana a criança apresentou 10% a menos de chance de se tornar obesa. Além disso, houve correlação entre o índice de massa corporal (IMC) das crianças e dos pais. Um achado interessante do estudo é que as crianças obesas apresentaram preferências para lanches salgados, embora não fossem diferentes em termos calóricos dos lanches doces. Ainda não se sabe o motivo para esta diferença. Entretanto, um efeito potencial seria o aumento da sede pelo consumo de sal e conseqüente consumo de refrigerantes, os quais contribuem para o consumo energético.
São necessários estudos futuros relacionando a obesidade e o consumo de sal para se estabelecer estratégias de intervenção nesta área. É interessante notar que o limite de detecção do sabor salgado está diretamente correlacionado com o nível de ansiedade. Uma hipótese seria que as crianças mais ansiosas apresentam limiares maiores para alimentos salgados, com consumo de sal além das necessidades.
Outra estratégia de intervenção está no aleitamento materno. Existem poucos trabalhos relacionando o aleitamento materno por mais de 6 meses com prevenção da obesidade, entretanto, são consistentes.
A prevenção da obesidade deve ser prioridade. Para isso, é necessário o estabelecimento de estratégias apropriadas, que sejam agradáveis e com resultados atrativos para as crianças. Outros estudos devem ser realizados para avaliar os efeitos à saúde e custos das intervenções de longo prazo como informações transmitidas às crianças e pais, controle do IMC das crianças, restrição de propagandas de alimentos, controle da alimentação nas escolas, disponibilidade de locais para atividade física nas escolas, programas escolares de atividade física e locais públicos seguros para caminhar e andar de bicicleta.
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