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Uma história de amor entre mãe e filho

Por Adriana Conde

Marlene Santos Silva, 30 anos, empregada doméstica, casada, três filhos. Nos olhos, confiança e fé. Nos braços, o caçula Marcus Vinícius que, com apenas cinco meses, já passou por quatro cirurgias com o objetivo de curá-lo de uma doença congênita intestinal chamada Megacólon. As intervenções, porém, ainda não levaram ao bebê tantos benefícios quanto a amamentação realizada pela mãe que, ao oferecer o leite do peito, materializa a cada instante o amor que o está salvando.

A história de Marlene, em São Paulo, começou há 11 anos, quando saiu de Alagoas para, ao lado do marido, tentar uma vida melhor na cidade. Depois dos dois primeiros filhos, a doméstica surpreendeu-se ao receber a notícia da terceira gravidez. Afinal, havia dado à luz em menos de um ano.

Em 18 de fevereiro de 2008, Marcus Vinícius veio ao mundo. Aparentemente saudável, não apresentava, na opinião da mãe, comportamento semelhante ao dos filhos mais velhos na hora de mamar. “Via que ele sentia vontade de sugar o peito, mas logo desistia. Também não evacuava e eu sabia que isso não era normal. Foi quando o bebê foi encaminhado para exames. Após 48 horas do parto, os médicos informaram que o intestino apresentava uma torsão”, diz Marlene. “Fiquei desesperada e comecei a me culpar, achando que não havia feito o pré-natal corretamente”.

O problema, porém, era bem mais sério do que a mãe desconfiava. Marcus Vinícius apresentava inervação inadequada do intestino grosso, e não conseguia eliminar as fezes. A doença fez com que o intestino se rompesse ainda durante a gestação. Após o diagnóstico médico, o lar de Marlene e do bebê passou a ser o Hospital Mário Covas, em Santo André, no ABC paulista. Encaminhada para uma grande cirurgia, a criança foi obrigada a ficar um mês e meio em jejum absoluto, sendo alimentada apenas por soro na veia. Passado o período, aconteceu o que ninguém, exceto a mãe, esperava. Sem explicações científicas, Marcus Vinícius realizou o desejo que manifestava desde o primeiro choro no mundo. Mamou. Não quis saber da sonda inicialmente utilizada para facilitar a amamentação. Muito menos da ajuda de apetrechos como copos e mamadeiras. Foi levado de encontro ao peito da mãe. Mamas túrgidas de leite e carinho, começava aí a grande evolução do bebê.

“Acredito em milagre. Mas também fiz a minha parte. Durante o período em que meu filho foi obrigado a ficar em jejum, doava leite para o banco do hospital. Sabia que esta era uma forma de estimular a produção do leite, ao mesmo tempo em que beneficiava outras tantas crianças necessitadas”, diz Marlene. “Chegava a tirar 500 ml de leite de uma única vez. Fiquei famosa no hospital de tanto leite que tinha”.

Sucesso inexplicável
Segundo a médica nutróloga que acompanha o tratamento de Marcus Vinícius, Fabíola Isabel Suano de Souza, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o sucesso da amamentação do bebê é mesmo inexplicável. “Após a primeira cirurgia, nem os médicos sabiam ao certo quando a criança poderia começar a mamar. Sabemos que, após mais de um mês sem amamentação nesta fase da vida, 95% dos bebês não conseguem mamar novamente, seja por conta das dificuldades físicas ou do leite que seca”. A presença constante de Marlene ao lado do filho, no entanto, diz Dra. Fabíola, foi fundamental. “Para ela, nunca houve outra alternativa que não fosse a amamentação. Tanto assim que nem passou por sua mente comprar uma mamadeira. Ela tinha como certo que o bebê voltaria ao peito. E foi, de fato, o que aconteceu”.

Após a primeira cirurgia, Marcus Vinícius já sofreu outras três intervenções. Após cada uma delas, foram necessários novos períodos de jejum. Nenhum deles foi páreo para a vontade do bebê em retornar ao seio da mãe, que há um mês e meio amamenta ininterruptamente. Na última cirurgia, uma grande surpresa. Algo que, de acordo com Dra. Fabíola, pode estar intimamente ligado aos benefícios do leite materno. “Os médicos esperavam a ausência completa de inervação no intestino do bebê, o que não foi observado. Ou seja, houve um amadurecimento inesperado do órgão, que acabou sendo explicado por algum tipo de falha na biópsia anterior. Mas que, eu acredito, pode estar relacionado à importância dos nutrientes do leite materno e a todo o amor da mãe. Não tenho dúvidas de que a evolução do Marquinhos deve-se à amamentação. Com certeza ele caminha para uma vida normal”.

Receita
A história de Marlene Santos Silva e seu pequeno Marcus Vinícius se confunde com a de tantas outras mães e filhos. Para todas elas, a doméstica alagoana dá a receita: fé, amor e muito leite do peito. “Amamentar não dói. É simples e não custa nada. Quem tem dificuldades ou medo de oferecer o peito aos filhos pode e deve procurar enfermeiros, nutricionistas e profissionais que trabalham em maternidades. Em pouco tempo eles ensinam a forma mais prática e segura de amamentar. Nossos bebês agradecem”.

Áudio
Escute o áudio da entrevista (arquivo .wma).

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